::Para quem trabalha em hospitais

ELIANA BALENA
Psicóloga

Jornal Tribuna de Minas
15/08/2012

Geralmente as cenas da vida real ou da ficção que tratam de pessoas no leito de morte, fazendo o último pedido nos remetem a um cenário de revelações bombásticas ou tarefas a ser desempenhadas por quem fica. Com meu pai foi diferente. Seu último pedido nada teve de extravagante, até porque ele se encontrava em um estado de total lucidez e confiança em sua recuperação. Ele simplesmente nos solicitou que escrevêssemos sobre a importância de os enfermeiros, sobretudo os de UTI, serem mais zelosas na sua tarefa e se inspirarem no exemplo de Maria e de sua serenidade. Ela é promessa de esperança, é ternura e solidariedade, é bondade e amor.

Hospital é um lugar muito rico em experiências. Alguns, ali, se encontram por força da necessidade, por uma imposição, torcendo pela estadia rápida. Outros, não! Estão ali porque escolheram. Decidiram que fariam sua rotina profissional dentro daquele espaço de dor, sofrimento, expectativas e vitórias. Em um dado momento de suas vidas, optaram por fazer do trabalho uma fonte de alívio do sofrimento humano. Até juraram isso!

Mas por que será que o tempo vai amainando esse ideal, essa chamada vocação? Por que nos deparamos com pessoas que circulam por hospitais como se nunca tivessem assumido o papel de cuidadores? Sim, este é o cenário de um hospital. Tem gente de todo tipo. Lidar com os que sorriem é muito fácil. A alegria de uma recuperação, a vibração pelo nascimento de uma criança, o alívio da alta... Mas, e com os que não estão a sorrir? Será que os profissionais estão conscientes da importância de seu papel diante da dor do outro? Será que eles sabem a ansiedade gerada por um soro que está por acabar cuja troca demora “uma eternidade”? Será que os técnicos de enfermagem sabem a dor na carne e na alma de quem está vendo o braço perfurado inúmeras vezes em busca de uma veia que foi perdida por negligência ou incompetência?

E a equipe da UTI? Sabe que suas piadinhas, seus comentários de vida pessoal estão sendo ouvidos pelos que ali estão? Imaginam que sua alegria, seu tom de voz exaltado estão incomodando aqueles que se encontram incapacitados de revelar claramente o que sentem (mas sentem, com certeza!)?

Será que os dirigentes da instituição sabem o que é ser acompanhante de um paciente? Será que diante de tanta frieza gerada por granitos e vidros temperados, não resta um mínimo de calor humano nessas mentes capitalistas, que fazem de nosso anseio por saúde sua fonte de enriquecimento?

Onde estão nossas escolas formadoras dessa mão de obra? De todas as lições aprendidas nos cursos técnicos ou nas faculdades, a mais singela e mais importante nos oferece Cora Coralina:

“Muitas vezes basta ser colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que sacia, amor que promove. E isso não é coisa do outro mundo: é o que dá sentido à vida”.

Então é isso, meu querido pai, Olegário Balena Pereira. Espero ter cumprido seu pedido e, com minhas palavras e seu exemplo, tocado os corações de pessoas. Com a força e o amparo de Maria, tentamos ser pessoas com mais docilidade, serenidade, paciência e serviço.

 

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