::A medicina e a ética::

Como teoria filosófica, a ética se caracteriza como o estudo das ações individuais dos homens, cuja finalidade consiste em elaborar uma orientação normativa para as ações humanas de acordo com o que seja estabelecido como bem. Neste sentido, podemos definir a ética como uma elaboração teórica da prática humana, que busca determinar a conduta que se dirige ao bem. Ao se constituir como uma área específica de estudo teórico, a ética se tornou uma filosofia moral, ou seja, a ciência que se ocupa dos objetos morais. É a partir da tradição filosófica grega, da qual somos seus herdeiros diretos e, sobretudo, com Aristóteles, que a ética passou a ser a ciência do moral, ou seja, do caráter e das disposições do espírito.

No século XX, com os desafios que foram sendo criados com o avanço da biotecnologia, a ética começou a penetrar no campo da medicina. Tendo em vista a necessidade lidar com os avanços tecnológicos, a elaboração e a recomendação de normas para os comportamentos na área das biociências, surgiu a bioética.

Essa relação ética no campo médico na realidade não é nova. Historicamente, a figura de Hipócrates, que era um sacerdote e famoso por seu juramento que ainda hoje é utilizado na formação de médicos, é o primeiro a romper com o pensamento mítico ao defender a idéia de que as doenças têm causas naturais. Com Hipócrates, a medicina perde um pouco do seu caráter místico e mágico, para se tornar mais técnica. É a Hipócrates que se deve atribuir um primeiro vislumbre de um pensamento ético dentro da prática médica uma vez que dos 72 livros escritos que lhe são atribuídos, 07 estão ligados a conduta do médico, dentro do seu mister.

Por outro lado, a conduta e prática médicas levaram muitos renomados homens de ciência a cometer o que, para nós hoje em dia, pode ser considerado como verdadeiras atrocidades, como por exemplo, o caso da vacina contra tuberculose (BCG), por meio do qual dezenas de crianças faleceram com os testes. Cientistas renomados como Hansen (descobridor do bacilo da lepra) e Pasteur também são conhecidos no campo da medicina não apenas por suas grandes descobertas, mas pela falta de “caráter” com que agiam em alguns casos, para obter os resultados esperados.

Nos E.U.A., mulheres latinas foram submetidas a irradiação, para saber qual era a conseqüência e efeitos da mesma. O presidente Clinton fez um pedido de desculpas a comunidade negra de uma cidade americana, em função das pesquisas envolvendo a Sífilis, no qual, inescrupulosamente, cientistas deixaram desenvolver a doença para saber quais negros iriam sobreviver, quais iriam morrer, quais iriam desenvolver ou não a doença, numa época em que já se poderia tratá-los de modo mais adequado mas, em “nome da ciência”, preferiu-se deixar desenvolver o vírus para conhecer os seus resultados.

Com numerosos exemplos semelhantes a estes relatados, a comunidade científica começou a ficar angustiada. Mas, por outro lado, as pesquisas não podiam parar. Dessa forma, sentindo uma grande necessidade de elaborar normas para o comportamento médico, desenvolveu-se a bioética, levantando pontos de discussão importante para os riscos do desenvolvimento da biotecnociência.

Recentemente, o prof. Paulo Henrique Martins, da Universidade Federal de Pernambuco, lançou um livro, Contra a desumanização da medicina – crítica sociológica das práticas médicas modernas. No referido livro são abordados assuntos como, por exemplo, a questão da desumanização da medicina, mudanças que devem ocorrer no campo médico a nível mundial, um novo paradigma que repense a saúde, que trabalhe questões que envolvam saúde e ecologia, a relação da medicina com as ciências humanas, entre outros. Essa revisão no campo da biomedicina, na realidade, já fora objeto de análise por um dos grandes filósofos do século XX: Michael Foucault. Já Foucault, em suas reflexões sobre a área médica estabelecia críticas sobre como é o campo medico; como se organiza o campo médico. Foucault chamou atenção para a questão da desumanização e tecnização da medicina.

A medicina, se por um lado nos permite crescer como seres-humanos, na medida em que nos oferece um melhor conhecimento sobre os mecanismos vitais da nossa existência, por outro lado nos abre a possibilidade de transformarmo-nos em “monstros”, na medida em que passamos a nos utilizar deste saber para fins próprios e pessoais, sem levar em consideração a figura do outro, objetivando tão somente interesses pessoais ou de “indústria capitalista”, muitas vezes mesquinhos.

Há em nosso século uma necessidade de despertar nos indivíduos uma consciência crítica diante do processo de mercantilização da prática médica, da transformação do sofrimento e da doença em mercadorias e objetos de lucro incessante. Uma necessidade imperiosa de resgatar a dimensão humana no âmbito da prática médica.

Há erros e erros, uns causados por fatalidades reais, outros causados meramente por vaidade, presunção e orgulho em não admitir-se que se encontra impotente ou inferiorizado em resolver determinada doença ou complicação de saúde mais grave do paciente. Não aceitando a opinião ou ajuda de um outro profissional da área ou até mesmo transferindo a competência para outras mãos mais hábeis...Assim infelizmente observamos muitas vidas se esvaírem, e famílias serem ceifadas de seus entes amados. Pois ética é moral.

 

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