Erro Médico - Caso Francisco

Até 4 de março de 1995 eu trabalhava duramente, porém procurava me divertir como a maioria dos jovens da minha idade naquela época: sair à noite, encontrar os amigos, namorar, tinha até uma noiva... Sempre gostei de motocicletas e tinha uma moto linda e potente, que sempre pilotei com consciência e responsabilidade.

Entretanto, a partir de 4 de março de 1995 minha vida nunca mais voltou a ser a mesma. Fui personagem de uma história muito triste.


Nesse dia eu trafegava com minha moto pela estrada de Guarapiranga, em Santo Amaro (SP), quando fui surpreendido com um carro que invadira a contramão e me pegou de cheio na perna esquerda. Caí da moto e fui para o chão. Quando tentei me levantar para tomar consciência do que acontecera, vi que minha perna esquerda estava aberta com a pancada, uma fratura exposta horrível, o osso da perna visível em grande parte...


Fui prontamente socorrido por um popular que passava pelo local e que me levou ate à Santa Casa, de Santo Amaro. Lá chegando e atestada a gravidade do ferimento, o médico alegou que naquele hospital não tinham condições de fazer a cirurgia necessária e determinou que eu fosse transportado urgentemente para o Hospital Regional Sul de Santo Amaro. Isso foi feito.

Eu, Francisco, antes do acidente

Mas no Hospital Regional Sul acabei ficando por cerca de quatro horas jogado em uma maca como um animal, sem analgésicos, sem nada, só eu e Deus, suportando uma dor horrível e sendo bombardeado por pensamentos de extrema depressão.

Quando finalmente me levaram para o centro cirúrgico e foi feita a cirurgia com objetivo de salvar minha perna. No dia seguinte à operação, lembro-me que acordei com um fixador de aço na perna. Minha primeira atitude foi verificar que os dedos do pé e o tornozelo mexiam e fiquei feliz da vida porque não haviam amputado minha perna e acalentei a convicção que eu iria me recuperar. Mas essa alegria durou muito pouco.

Apenas um dia após a cirurgia as coisas começaram a mudar: meu pé foi ficando cada vez mais frio e mudando de tonalidade. Somente 72 horas após o acidente, quando não existiam mais chances de refazer a cirurgia, resolveram me mandar para um exame de arteriografia que revelou que o médico cirurgião não havia religado algumas das artérias da perna que se haviam rompido com a fratura exposta.

No quarto dia após o acidente ninguém conseguia chegar perto de mim, pois a região estava com um cheiro insuportável, minha perna havia falecido, estava putrefeita, eu estava com um cadáver em meu corpo.

Ao ver que nada estava sendo feito, meu irmão me tirou à força e aos berros desse hospital macabro, pois apesar de todo o acontecido não queriam liberar minha transferência para o Hospital das Clínicas. Mas meu irmão conseguiu, graças a Deus.

Chegando ao Hospital das Clínicas foi convocada uma junta médica e os médicos decidiram amputar minha perna abaixo do joelho, pois a mesma já estava em estado de putrefação irreversível. Após a amputação fiquei em coma durante 12 dias entre a vida e a morte, tive 2 paradas cardíacas e uma infecção generalizada.


Eu e minha filha, Ellen.
Tudo isso aconteceu porque o médico não fez o procedimento correto na cirurgia e também demorou muito para operar. Eu deveria ter sido operado imediatamente para evitar a morte dos tecidos. Mais tarde descobri que esse médico fazia o terceiro ano de residência no HC, para onde eu fui transferido. O HC desapareceu com a minha perna amputada sem me dar um parecer técnico e oficial das razões da amputação.

Denunciei o médico para o Conselho Regional de Medicina de São Paulo e nada aconteceu. Os peritos de lá disseram que o médico lutou heroicamente para manter minha perna no corpo.

Tornei-me associado da Associação das Vítimas de Erros médicos de São Paulo, onde encontrei todo o suporte para entrar com uma ação na justiça. Dei varias entrevistas na televisão relatando o que acontecera comigo.

O processo que acionei contra o médico da primeira cirurgia já está há quase oito anos na justiça e ainda se encontra em segunda instância. Na primeira eu ganhei e a juíza determinou o pagamento de 400 salários mínimos. Era o que a justiça brasileira entendia ser o valor da minha perna e da minha vida.

Posso garantir que até hoje, com médicos, remédios, material de enfermagem e dias sem trabalhar já gastei muitas vezes mais do que esse valor total da indenização que ainda aguarda decisão superior para me ser depositada.

Hoje uso uma prótese na perna esquerda, abaixo do joelho e tenho uma área de enxerto na perna que foi tirada de minhas costas para que eu não perdesse o movimento do joelho.

Minha vida hoje não é nada fácil, mas eu não desisto nunca! Enquanto eu não provar que tenho razão e ganhar esse processo na justiça eu não vou sossegar...

Mas não posso finalizar minha história de dores e de lutas sem revelar alguns acontecimentos maravilhosos que marcaram minha vida de forma também inesquecível após o lamentável acidente.

O primeiro é que, em março de 1995 e ainda portador de um corpo perfeito, eu estava noivo de uma jovem linda e meiga. Essa garota ficou sempre ao meu lado, não se importou com o fato de que eu fora transformado em um deficiente físico e hoje é minha esposa. O nome dela é Daniela Moscatelli.

O segundo acontecimento maravilhoso foi a minha querida esposa ter me presenteado com uma filha também muito especial, a Ellen, peralta e cheia de saúde, que é o meu encanto e a minha fortaleza para resistir a qualquer desafio.


Minha família querida


Ellen e Eu

O terceiro, é que se eu encontrei um médico incompetente e descuidado quando mais precisava de alguém realmente capacitado para salvar minha perna, nas dificuldades que venho sendo obrigado a suportar também tenho encontrado médicos maravilhosos, que estão ao meu lado, aliviam minha dor, aconselham sobre os melhores procedimentos para minorizar o sofrimento e a dor...

Um deles, especialmente, tornou-se meu amigo querido, meu conselheiro nos momentos de depressão após as várias cirurgias que tive de fazer. Faço questão de registrar o nome desse médico que honra a sua profissão: Dr. André Pedrinelli. A ele, meus melhores agradecimentos em público, feitos pela primeira vez e em um espaço-documento adequado.

Gostaria de acrescentar que se hoje estou vivo, em primeiro lugar foi graças a Deus e em segundo pela competência dos médicos do Hospital das Clínicas daqui de São Paulo a quem agradeço muito pelo profissionalismo com que fui tratado.

Quero deixar bem claro que tenho consciência de que em todas as áreas existem bons e maus profissionais e que com a medicina não é diferente. Ainda existem aqueles que desenvolvem sua profissão com amor, carinho e principalmente com respeito ao paciente.

Francisco Moscatelli
Vítima de erro médico
franmosca@terra.com.br


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