::Nem tudo que é branco é puro::


SAGRADO LAMIR DAVID
Escritor, Médico e Farmacologista

Quando o branco era sinônimo de candura, inocência e pureza, na prática da conversação, era sinônimo de limpeza, higiene e saúde na medicina. Hoje não. E sabem por quê? Pesquisas feitas, inclusive na UFRJ e em Manguinhos, têm demonstrado, por culturas variadas feitas em recortes de jalecos de profissionais da área de saúde, que eles proliferam diversas e super-resistentes bactérias responsáveis pelas piores e mais graves infecções hospitalares. Alguns infectologistas, inclusive, sugerem a introdução de jalecos descartáveis, e que, depois de usados, imediatamente são levados ao lixo hospitalar para serem eliminados, existindo até clínicas que já introduziram tal procedimento, especialmente nos grandes centros. Em minha época, jamais se cogitou de um hospital ser responsável por doenças. Ao contrário, era considerado um templo de abnegados sacerdotes que lutavam contra doenças em nome do bem maior de qualquer cidadão: a saúde!

Acompanhei, como estudante, e depois, como médico, o evoluir da construção, do crescimento e da justa fama adquirida por um dos maiores e melhores centros de assistência médico-hospitalar do Brasil, no setor científico e filantrópico: a Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora. Fui, depois de formado, estagiário no Hospital das Clínicas da USP e estive como research-scholar da Universidade do Sul da Flórida, além de ter me submetido a uma angioplastia no famoso Mount Sinai Hospital, em Nova York, e não me lembro, por mais que tente, de médicos, enfermeiros, laboratoristas e outros profissionais da área de saúde que estivessem de jalecos - sempre alvos -, que não fossem pelos largos e extensos corredores, enfermeiras e salas de cirurgia dos excelentes e exemplares nosocômios.

E com que cuidado e esmero se lavavam as mãos, com muito sabonete e escovas fortes e duras, antes de se entrar para as enfermarias e as salas de cirurgias. Por isso mesmo, agora, eu, que sempre lavei as mãos, com higiene e cuidado, e só usei jaleco no consultório e no hospital, no exercício da profissão, faço questão de não bancar o Pilatos e lavar as mãos sobre um assunto que não está na ordem do dia: a infecção hospitalar! Não quero dizer que apenas as vestimentas brancas usadas na área de saúde sejam a principal causa da infecção hospitalar, mas vejam hoje: observem, sem querer culpar nenhum dos que adotaram esse perigoso transitar, sempre uniformizados, de casa para a rua, da rua para o consultório, do consultório para o hospital, do hospital para os bancos, dos bancos para o comércio, do comércio para os restaurantes... e coloquem também, estrategicamente, na garupa da alvura traidora dos jalecos longos, curtos, de mangas, sem mangas, calças e sapatos brancos, milhões e milhões de invisíveis - para nós, não para os meios de cultura - bactérias a “colaborar” para produzir uma das piores causas de morte por doenças incontroláveis; a infecção hospitalar! Infecção essa que torna, olhem que paradoxo, um risco enorme para as internações hospitalares prolongadas, pelo absurdo do paciente ser vitimado por doença pior do que aquela que o levou a ser internado: a infecção por bacilos super-resistentes! Inclusive, essas roupas próprias para ambientes médicos, acabam transitando dentro das próprias residências pessoais dos usuários, podendo levar a seus familiares as mesmas doenças. Sem nenhuma doutrinação, com muita convicção, apenas uma sugestão: Vamos, todos nós da área de saúde, só colocar e tirar os jalecos, calças e sapatos brancos nos ambientes próprios: consultórios, laboratórios e hospitais?! Aposto que os bacilos resistentes vão ficar menos insistentes...

Recentemente, faleceu em um grande hospital em São Paulo, internado na UTI, já acometido de falência múltipla dos órgãos, o famoso político baiano Antonio Carlos Magalhães, acometido, ao final, de uma infecção hospitalar! Para terminar, ao expor meu texto a uma colega muito consciente, ela me declarou, espontaneamente, ter certeza de que tinha, pelo jaleco infectado, contaminado sua filhinha com uma pneumonia: é preciso melhor razão para este texto que escrevi?! Vamos começar em nossa culta Juiz de Fora a dar exemplo ao Brasil?!


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